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Lula ou Bolsonaro: qual governo seria melhor para a economia? Especialistas respondem

SÃO PAULO – Os investidores voltaram a ser surpreendidos com uma reviravolta brusca nos mercados na última segunda-feira, quando se tornou pública a decisão do ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de anular as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Operação Lava Jato.

O Ibovespa, que vinha em queda de 0,9% no dia 8 de março, acelerou as perdas com a decisão e fechou em baixa de 3,98%. Já o dólar subiu 1,67% a R$ 5,78. Os juros futuros na parte longa da curva (mais sensível a oscilações no noticiário político devido ao prêmio associado ao prazo de vencimento) dispararam mais de 30 pontos-base, sendo que o DI para janeiro de 2027 teve variação positiva de 32 pontos-base a 7,96%.

No dia seguinte, porém, o Ibovespa se recuperou, subindo 0,65% a 111.330 pontos. O dólar teve ainda leve alta de 0,33% para R$ 5,79, mas depois caiu a R$ 5,56 nos dias posteriores. O DI para janeiro de 2027, por sua vez, não se recuperou e se assentou em 7,96%, mas parte desse desempenho também tem a ver com a alta registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em fevereiro e divulgada esta semana.

Para a maioria dos especialistas, a decisão antecipou em alguns meses o debate eleitoral, o que deve trazer ainda mais volatilidade aos mercados, dependendo do posicionamento dos políticos daqui para a frente.

Para os investidores, o que interessa nessa disputa é saber quem enfrentará melhor os desafios econômicos atuais, como reaquecer o consumo depois dos impactos da pandemia de coronavírus e colocar um fim à trajetória de avanço da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

Lula 1989 ou Lula 2002?

O pronunciamento de Lula nesta quarta-feira (10) foi o ponto de partida para analistas e gestores lançarem suas teses sobre como seria um eventual governo petista em 2022 e, diante dessas impressões iniciais, qual opção seria seria melhor do ponto de vista econômico.

Diversas análises seguiram no caminho de avaliar se a nova versão de Lula é mais parecida com: a do primeiro mandato, do “Lulinha paz e amor”, que escreveu a carta ao mercado em 2002; ou mais próxima a de seu segundo mandato e da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, do Lula sindicalista de 1989, mais intervencionista e cercado de pessoas como Guido Mantega e Arno Augustin.

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Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio-fundador e CEO da Mauá Capital, o Lula que ressurge está mais para a segunda opção. “Não estou nem falando que é mais parecido, estou dizendo que é claramente o Lula do segundo mandato, porque o Lula de 2002 não era o real. E isso fica claro não pelo que ele falou nesta semana, mas pelo que ele fala sempre.”

Figueiredo acrescenta que o Lula de 2002 nunca existiu, foi uma ilusão criada pelo cenário econômico favorável do período. “Lula assumiu o governo em 2003, sendo que em 2002 o superávit primário do país foi de 3,91% do PIB, o percentual mais elevado desde 1994, e a relação dívida/PIB era de 55,9%. Ele só entrou e disse: não serei irresponsável, as pessoas foram acreditando e ele não precisou mudar nada. E ele tinha ao lado um cara com um monte de questões, mas que era genial, que era o [Antônio] Palocci [ministro da Fazenda entre 2003 e 2006].”

Evandro Buccini, diretor de renda fixa e multimercados da gestora Rio Bravo, também acredita que a versão atual de Lula é mais arriscada para a economia. “O discurso foi mais parecido com o do segundo mandato e a gestão Dilma, com menção à interferência na Petrobras e aumento dos gastos públicos.”

Mas essa visão está longe de ser ponto pacífico entre os analistas. O economista-chefe de uma das principais instituições financeiras do país concorda com Figueiredo no sentido de que Lula se mostrou o mesmo de sempre, mas tem visão bem diferente sobre o que isso significa. “Ele usou o tom da vida inteira dele. Basta lembrar da clássica entrevista à Playboy em 1989: ele já era assim, já falava dos dois lados e acenava ao empresariado. Ele vai ser um misto.”

Roberto Attuch, CEO da plataforma de análise Ohm Research, viu um Lula mais conciliador. “Para energizar a base, ele poderia ter falado que a Dilma foi golpeada. Mas ele não falou da Dilma, justamente para empresários não terem medo dele. Essa foi a principal sinalização de que ele quis passar uma ideia mais próxima aos empresários. O que pegou mal no mercado foi só a questão da Petrobras, quando ele disse que quem está comprando refinarias deve tomar cuidado”, diz.

Alessandra Ribeiro, sócia-diretora da área de macroeconomia da Tendências Consultoria, vai na mesma linha. “Muitos esperavam que ele voltasse mais raivoso e radicalizando, mas eu vi o oposto. Apesar de todo o ressentimento, ele disse: ‘Não tenho raiva’. Ele foi na linha da moderação, da conversa com vários partidos e empresários. E tem todo o histórico do Lula na eleição de 2002, ele entendeu que se não moderasse, não conseguiria o apoio do mercado e não teria sido eleito.”

O economista de uma importante gestora, que preferiu não se identificar, afirmou que um membro de sua equipe conversou com Lula recentemente. Da conversa, concluiu que um eventual terceiro governo de Lula seria bem diferente da gestão de Dilma, pois o petista possui um cálculo político melhor e tende a fazer acenos ao mercado para garantir sua governabilidade.

“O sonho do Lula seria convencer a [empresária] Luiza Trajano [dona do Magazine Luiza] a ser sua vice, e ele vai tentar trazer a imprensa e os bancos para o seu lado, já que o Banco Central está sendo muito agressivo com os ‘bancões’ no governo Bolsonaro”.

A economia e os ministros de Bolsonaro e Lula em 2022

O mesmo gestor enxerga a possibilidade de uma volta de Henrique Meirelles, secretário da Economia de São Paulo, a um eventual governo Lula, dessa vez no Ministério da Economia (Meirelles foi presidente do Banco Central durante seus dois mandatos). Caso a projeção se concretize, ele acredita que o mercado se animaria.

Outro nome cotado é o de Marcos Lisboa, atual presidente do Insper e ex-secretário de política econômica do ex-presidente. “Mais à esquerda, outros nomes que já são comentados são Monica de Bolle e Laura Carvalho, mas aí seria um ministério mais complicado”, diz um economista.

O gestor entrevistado pelo InfoMoney disse que na conversa mencionada acima, Lula sinalizou que vem com uma plataforma eleitoral forte, com um discurso pró-vida, pró-ciência e com foco no combate à pandemia, que se tornou o maior ponto fraco de Bolsonaro.

Para ele, as diferenças entre um governo Lula e uma gestão Bolsonaro serão vistas mais claramente na condução da política externa. “Lula deve se aproximar do presidente americano Joe Biden como se aproximou de Barack Obama”, avalia, destacando que o meio ambiente e a proteção da Amazônia serão pontos importantes para o petista.

Marília Fontes, analista da Nord Research, acredita que o cenário de polarização deve, paradoxalmente, jogar tanto Lula quanto Bolsonaro para o centro, uma vez que cada um é dono de um eleitorado cativo que gira em torno de 30% da população. “Para ganhar a eleição, será necessário conquistar o centro”, explica.

A analista da Nord enxerga Lula e Bolsonaro como pragmáticos em termos de economia, o que garante alguma estabilidade ao mercado. “Os dois têm traços populistas e base de votação muito forte no funcionalismo público e entre as pessoas de classes menos favorecidas. No entanto, ambos já demonstraram que, quando no poder, fazem um certo afago no mercado, com políticas fiscais responsáveis”, defende.

Marília lembra que Bolsonaro, logo depois de demitir o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, aprovou a lei que garante a autonomia do BC e conseguiu manter alguma potência fiscal na PEC Emergencial.

Da mesma forma, Lula, em seu primeiro mandato, conseguiu que o governo tivesse sucessivos superávits primários. “Está claro que Bolsonaro não vai ser totalmente liberal, nem populista. Assim como Lula, ele deve oscilar para manter seu capital eleitoral.”

Qual dos dois o mercado prefere (por enquanto)?

Em entrevistas recentes, o veterano investidor de mercados emergentes Mark Mobius, à frente da Mobius Capital, disse estranhar a reação do mercado à decisão do STF envolvendo o ex-presidente, diante da avaliação de que ele liderou o país em alguns dos momentos “mais felizes”, com grande popularidade.

“Não acho que o retorno do Lula será necessariamente ruim para o mercado brasileiro. Acho que ele aprendeu a lição no que diz respeito à corrupção”, afirmou, nesta terça-feira (9) à Bloomberg TV.

Alessandra, da Tendências, não discorda de Mobius. “Se pegarmos como referência o primeiro mandato de Lula, Mobius tem razão, Lula andou direitinho na cartilha liberal, sustentou o que tinha sido feito anteriormente. Foi uma boa condução da economia. A grande paulada veio na Dilma.”

Mas ela acredita que os donos do PIB ainda têm uma preferência, mesmo que frágil, por Bolsonaro. “O mercado apostou muito em Bolsonaro e comprou a agenda do [ministro da Economia] Paulo Guedes, mas ele tem apresentado elementos que o mercado odeia, como a intervenção em preços e na condução de estatais. E em 2021 e 2022, temos um cenário difícil, com câmbio depreciado, pressões de preço, então existe o risco de Bolsonaro perder ainda mais a mão diante da competição clara com Lula. O risco de escorregar aumentou, até porque ele vai buscar apoio no segmento mais vulnerável da população e aí a agenda liberal pode não render frutos curto prazo. Se isso acontecer, o mercado perde a preferência que ainda tem por Bolsonaro.”

O CEO da Ohm Research concorda que o mercado ainda prefere Bolsonaro a Lula, mas ressalta que a disputa é acirrada. “Hoje, se fizéssemos uma pesquisa na Faria Lima no no Leblon, a maioria prefere Bolsonaro ainda, mas, mesmo assim, muita gente passou a imaginar que Lula de 2022 pode ser mais parecido com lula de 2002 a 2006, com Bernard Appy e Marcos Lisboa”, diz.

Attuch, que mora em Londres, acrescenta que vê uma diferença entre a percepção de investidores estrangeiros e brasileiros. “Vários dos estrangeiros têm muito menos medo do Lula do que o investidor local. Obviamente, sempre há risco, mas muita gente lembra de ganhar muito dinheiro em 2002, eu vivenciei isso muito bem. Lembro de investidores europeus que enriqueceram muito com o primeiro mandato de Lula.”

Questionado sobre sua preferência, Figueiredo, ex-diretor do BC, é bem direto. “Eu prefiro não ter o PT no governo, o partido que destruiu o nosso país, não quero passar por essa experiência de novo. Lula pode ir para o centro? Pode até ser, mas não está parecendo. Tudo pode mudar, essas coisas são completamente fluidas, mas já está definido que o caminho dele é ser populista mesmo, ter um Estado maior, não se preocupar com déficit publico e fazer um auxílio de R$ 600 a perder de vista”, diz.

Alguns dizem também que existe uma semelhança entre os dois. “Bolsonaro também é intervencionista, mas está sendo, em parte, domado pelo Guedes. Às vezes, a gente foca no fracasso da dupla, mas tem alguns sucessos, poderia ter sido pior, ele poderia já ter feito intervenção na conta de luz, o BNDES poderia ter aumentado, não diminuído, o auxílio emergencial poderia ter vindo sem PEC. Mas estou baixando muito o sarrafo para dizer que algo aconteceu”, diz um economista.

Menos espaço ao centro

É senso comum entre os especialistas: com a volta de Lula ao páreo, o cenário político fica polarizado desde já. Com o ex-presidente aparecendo em pesquisas como o candidato mais forte em um eventual embate com Bolsonaro, e considerando que ambos mantêm uma base fiel, de cerca de 20% a 30% da população, muitos analistas já dão como certo uma disputa entre ambos e sem um candidato ao centro.

Muitos também dizem que, entre Bolsonaro e Lula, leva a eleição que garantir o apoio dos eleitores indecisos. “Nosso time de política vê como improvável uma construção mais ao centro, até porque Lula tem trabalhado para trazer parte do centro para ele. Mas os dois vão disputar o centro e é difícil saber quem leva, não dá para desprezar Bolsonaro com a máquina pública do lado dele”, diz Alessandra Ribeiro.

O cenário que se desenha, no entanto, é bem distante do que os dos donos do dinheiro gostariam. O melhor cenário, segundo a ampla maioria deles, seria um candidato convictamente centrista.

Mas tem quem ainda acredite na possibilidade de uma terceira via. “Diminuir a chance do centro, não quer dizer que eliminou. Estamos a dois anos da eleição, é muita coisa. O centro ainda está dividido com vários candidatos, mas se o cenário muda em 15 segundos, ainda pode mudar muito até lá”, diz o CEO da Mauá.

Cenário ruim para reformas

Os especialistas consultados também dizem que a possibilidade de aprovação das reformas de ajuste fiscal perde muito espaço com a polarização.

“Bolsonaro não vai nem dar mais liberdade para o Guedes depois da PEC Emergencial, pois reforma Administrativa e Tributária são mais difíceis, polêmicas e tiram votos”, diz Marília.

A equipe de análise da Levante Ideias de Investimento, analisa que o discurso de Lula o colocou de volta no jogo político e a consequência negativa disso é a retirada do foco na atividade legislativa, diante de uma preocupação eleitoral cada vez maior para 2022.

O Morgan Stanley, em relatório, também alertou para a piora do clima para as reformas. “A anulação das condenações por corrupção de Lula devem tornar a agenda de consolidação fiscal para a segunda metade de 2021 mais difícil, dado que o horizonte mais competitivo para as próximas eleições desafia a prudência fiscal do atual governo.”

Esse é o risco no atual cenário. Muitos dos especialistas disseram que é cedo para dizer como seria a gestão econômica de Lula, mas outros cravam que definitivamente seria pior e argumentam que o próprio ex-presidente torna isso claro ao dizer, em suas próprias palavras, só enxerga redução da dívida/PIB com um aumento do denominador via expansão do investimento estatal, ou seja, os déficits públicos devem continuar. E também ao defender o auxílio de R$ 600.

“O endividamento vai explodir e o governo não vai conseguir rolar a dívida pública. Da onde vem o dinheiro para ser desenvolvimentista? Com o Estado com uma dívida pública de 90%, como vai ter capacidade de investir, sem vender nada? A não ser que faça mágica, não sei como”, diz Figueiredo.

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