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Quanto tempo dura a imunidade ao coronavírus? A resposta pode ir além dos anticorpos

Um estudo que teve repercussão recentemente é assustador: ele teria constatado que pessoas infectadas anteriormente podem perder quase todo tipo de anticorpo contra o coronavírus em três meses. Mas as descobertas do estudo são muito limitadas para supor que a imunidade ao vírus seja tão curta.

O estudo foi publicado na semana passada na Nature Medicine. Usando amostras de sangue, pesquisadores da China estudaram a resposta imune de 37 pessoas que apresentaram resultado positivo para o coronavírus, mas nunca desenvolveram nenhum sintoma. Eles foram comparados a 37 pessoas que ficaram levemente doentes, bem como a um grupo de controle de pessoas que testaram negativo para o vírus.

Ambos os grupos que pegaram o vírus tiveram respostas imunes relativamente semelhantes no início. Mas dois a três meses depois, mais de 90% de ambos os grupos experimentaram uma redução significativa nos anticorpos IgG específicos para COVID-19. A maioria dos dois grupos também experimentou uma queda nos anticorpos que impedem o vírus de infectar as células, chamadas anticorpos neutralizantes.

Esse declínio na IgG (Imunoglobina G) e anticorpos neutralizantes foi mais grave em pessoas assintomáticas, com cerca de 40% se tornando soronegativos para IgG, o que significa que seus níveis caíram além do ponto de detecção. Do grupo sintomático, 12% também se tornaram soronegativos.

As descobertas “podem indicar os riscos do uso de passaportes de imunidade de COVID-19”, escreveram os cientistas. Mas, como eles admitem, ainda precisamos de muito mais pesquisas para confirmar esses resultados e saber se a imunidade é mesmo tão pouco duradoura.

“No geral, é um estudo muito bem feito”, disse Otto Yang, professor de medicina e chefe associado de doenças infecciosas da Escola de Medicina David Geffen da UCLA. “Mas há pelo menos duas grandes advertências que ainda não foram discutidas e precisam ser lembradas.”

Uma questão é que os anticorpos nem sempre são a coisa mais importante quando se trata de combater uma doença que já tivemos antes, disse Yang.

Existem outras células imunológicas que nosso corpo cria quando um vírus ou germe que encontramos antes aparece novamente, particularmente certos tipos de células T. Como anticorpos, essas células são codificadas especificamente para reconhecer um patógeno pela segunda vez. E até agora, as evidências sugerem que a infecção pelo coronavírus tende a criar uma forte resposta das células T.

Com alguns vírus, observou Otto, é a imunidade celular que oferece a maior proteção contra reinfecção ou doença, e não anticorpos.

“A segunda ressalva é que, se os anticorpos se correlacionam com a imunidade, não está claro qual seria o ponto de corte”, disse Yang.

Temos evidências de estudos de outros coronavírus humanos de que os níveis de anticorpos tendem a diminuir significativamente após um ano ou dois após a infecção, e as pessoas podem ser reinfectadas. Mesmo um ano de proteção seria mais útil do que alguns meses, dados os esforços contínuos para criar uma vacina eficaz o mais rápido possível.

Por exemplo, um estudo recentemente publicado na Nature Medicine analisou amostras de sangue coletadas de 149 pacientes recuperados em média 39 dias após a doença. Embora a maioria desses pacientes parecesse ter níveis relativamente baixos de anticorpos neutralizantes, os pesquisadores ainda descobriram que eles forneciam “atividade antiviral potente” em todos os pacientes testados.

Outra consideração são as células B de memória, que ajudam a acelerar o sistema imunológico, incluindo a produção de anticorpos, em resposta à reinfecção. Mesmo que os níveis de anticorpos ativos de alguém contra o vírus desapareçam rapidamente, é possível que seus corpos ainda mobilizem uma defesa potente e rápida contra o vírus assim que ele tentar infectá-los novamente. Essa resposta pode não impedir a reinfecção, mas deve facilitar o enfrentamento da reincidência.

“Eu acho muito razoável supor que a reinfecção seria mais suave”, disse Yang. “Qualquer que seja o equilíbrio de fatores genéticos ou subjacentes que determinaram sua doença pela primeira vez, provavelmente será o mesmo. E eles também terão uma vantagem em termos de quaisquer respostas imunes usadas para limpar a infecção em primeiro lugar, seja por anticorpos ou células T.”

Por mais encorajadoras que sejam, as descobertas definitivamente trazem implicações importantes se forem válidas. Se as pessoas realmente experimentam quedas drásticas nos níveis de anticorpos alguns meses após a infecção, o uso de testes de anticorpos como forma de identificar pessoas supostamente “seguras” contra o vírus será uma falha enorme.

Isso também pode significar que precisamos rastrear as pessoas mais cedo em busca de anticorpos se quisermos medir a extensão do vírus em uma área. Também quer dizer que a triagem posterior não deve ser considerada confiável.

Isso também põe em questão a noção de usar a imunidade de rebanho — a ideia de que um número suficiente de pessoas imunes em uma população impedirá que o vírus se espalhe para segmentos vulneráveis ​​ainda não infectados — para superar essa pandemia, segundo Bruce Walker, imunologista e diretor do Centro de Pesquisa da AIDS da Universidade de Harvard.

“Isso sugere que um número significativo de pessoas que geram anticorpos perderá esses anticorpos. E então nos resta especular. Isso significa que essas pessoas agora são infectáveis? Isso significa que ainda pode haver algum nível de imunidade que faça com que uma infecção repetida seja atenuada e talvez nem notada?” Walker disse ao Gizmodo. “Nós simplesmente não sabemos neste momento.”

Ao mesmo tempo, acrescentou Walker, este estudo só pode nos dizer algo sobre imunidade natural, não o tipo de imunidade que esperamos obter de uma potencial vacina algum dia. Algumas vacinas fornecem uma resposta imune mais robusta e duradoura do que uma infecção natural.

A questão da reinfecção e imunidade é um ponto discutível agora, já que a grande maioria das pessoas no mundo e nos EUA ainda não contraiu o vírus. Nesta semana, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) estimou que 5% a 8% dos americanos já tiveram COVID-19 até agora. Os que ainda não estão infectados incluem os milhões de pessoas com mais de 65 anos ou que vivem com condições crônicas como diabetes, que os tornam mais vulneráveis ​​a uma infecção grave ou com risco de vida.

Para a maioria de nós, é com a primeira rodada do vírus que devemos nos preocupar. Mas para as pessoas que sobreviveram a uma infecção, os resultados dos estudos podem enfatizar a necessidade de continuar a seguir as medidas de segurança.

“Uma mensagem que você deve levar é que, se você já foi infectado, não presuma que não está mais suscetível“, disse Walker. “Use máscaras, pratique o distanciamento social e desinfete suas mãos.

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